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Economia

segunda, 22 de abril de 2019
PAÍS ENFRENTA UM PROCESSO DE 'DESINDUSTRIALIZAÇÃO'?

A perda de importância da indústria na atividade econômica não tem sido tão significativa quanto parece indicar a proporção de sua produção em relação ao PIB

 

Fonte: por Ulisses Ruiz de Gamboa / Diário do Comércio / dcomercio.com.br

Foto: Imagem ilustrativa (reprodução: pixabay.com)

 

Estudos e artigos de jornal publicados recentemente têm chamado a atenção para a perda de importância da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o que refletiria um processo de desindustrialização, iniciado a partir da década de 1980.

Como a indústria manufatureira, entre as décadas de 1950 e 1980, foi principal motor do crescimento econômico, essa perda de importância é vista, por muitos autores, como um retrocesso, em vista de sua capacidade de gerar inovações tecnológicas e ganhos de produtividade.

Contudo, o indicador utilizado para medir o grau de industrialização da economia é a relação entre a produção industrial (valor adicionado manufatureiro) e o PIB, que mostra a proporção da atividade econômica gerada pela indústria.

Assim, quanto menor essa relação, menos importante seria o setor dentro da oferta total de bens e serviços, e vice-versa.

Entre 1974 e 1980, a participação da atividade industrial no Produto Interno Bruto se manteve praticamente inalterada, apesar da intensa expansão da produção manufatureira, impulsionada durante esse período pelo Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (2º PND). 

Após esse período, a participação do setor foi diminuindo ostensivamente, passando de 20,7% em 1980, para 11,8% em 2017, segundo o mesmo estudo.

Contudo, no mesmo gráfico, também pode ser observado que a produção da indústria de transformação manteve tendência crescente até 2013, para, posteriormente, se reduzir, vítima dos erros garrafais da “nova matriz macroeconômica” de Dilma Rousseff, que desembocaram na maior recessão de nossa história, porém, sem voltar ao nível registrado em 2003.

Desse modo, pode-se concluir que a intensa redução da participação do setor industrial no PIB não necessariamente implicou em elevada desindustrialização, como argumentam vários autores.

Evidentemente, não se está afirmando que, em termos de importância, a indústria tenha deixado de ser a principal atividade econômica, cedendo seu lugar aos serviços.

Em parte, essa transição reflete um processo natural de desenvolvimento de uma economia, que “nasce” agrícola, “cresce” industrial e “amadurece” ofertando serviços.

É o caminho que trilharam várias economias que se desenvolveram rapidamente, como foi o caso da Coreia do Sul.

Por outro lado, o fato de a indústria ter deixado de ser o “motor” do crescimento econômico nacional se deveu ao excesso de proteção e privilégios recebidos pelo setor, o que desincentivou sua modernização.

Isso, conjuntamente com a falta de infraestrutura, a escassez de mão de obra qualificada, o alto custo do crédito, a tributação excessiva, a burocracia e sobrevalorização do Real têm atuado para diminuir cada vez mais sua competitividade.

Além de tudo isso, uma análise isolada da participação da atividade industrial no PIB não leva em consideração a intrincada “teia” de relações entre esse setor e os demais, seja como comprador ou fornecedor de insumos e serviços.

Estimativas do Instituto Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), demonstram que as interrelações entre a indústria e a agropecuária e a indústria e os serviços apresentaram expressivo crescimento a partir de 1980.

Concluindo, pode-se afirmar que a perda de importância da indústria na atividade econômica não tem sido tão significativa quanto parece indicar a proporção de sua produção em relação ao PIB.

A análise da evolução desse único indicador também subestima a relevância do setor, que possui extensa e complexa redes de relações com os demais setores da economia.

De todo modo, o Brasil já é há algum tempo uma economia de serviços. A perda de protagonismo da indústria manufatureira responde, de um lado, a um processo natural de desenvolvimento da economia, e, de outro, à perda de sua competitividade, fruto do custo Brasil e de políticas industriais que, ao “superproteger” o setor, reduzem sua eficiência.

Fonte: Diário do Comércio